domingo, 26 de outubro de 2014

Moradores ou prisioneiros?

Foto: Michelly Maia
Por: Michelly Maia e Ygo Prudêncio 

Exausto, o sol vai terminando o seu passeio pelo céu, após um longo dia de trabalho. Ele caminha por cima dos casarões e declina lentamente, procurando o aconchego do Rio Jaguaribe. Aos poucos, os riscos alaranjados se unem ao azul celeste, compondo a ciranda do fim da tarde.

Os bons ventos anunciam a chegada da noite. Eu vejo duas senhoras: uma aparenta ter uns 60 anos de experiência em sentar na calçada; já a outra, ainda mais experiente, parece ter atingido essa marca há pelo menos duas décadas.

Elas se sentam devagar, quase sincronizadas, nas suas cadeiras de balanço. E é nesse embalo que começam a conversar. Na outra direção, eu avisto mais duas senhoras repetindo o ritual. Agora são duas duplas que não percebem a presença uma da outra, por causa da característica peculiar da rua. Ah, esta rua torta!

    
Foto: Ygo Prudêncio
Da minha posição privilegiada, posso ver também duas mulheres sentadas no banco da Praça da Independência do Brasil. Elas têm a mesma idade: 56 anos. Franci e Eridan, as duas Marias. Gesticulam, riem, relembram as aventuras do passado. O brilho nos olhos demonstra um sentimento de nostalgia. Ah, que papo gostoso! Até sinto vontade de me juntar a elas. Aquele “dedinho de prosa” se destaca na rua.

Hoje, os vizinhos se tratam como estranhos. Ora andam de cabeça baixa, ora com a cabeça nas nuvens. Conversas ao pé do ouvido viraram artigos de luxo. Perderam o hábito de olhar nos olhos. Se veem, mas não se enxergam. Franci comenta:

— Eu me lembro de que nós éramos muito mais vizinhos. A população se falava mais. Com a tecnologia, as pessoas se falam muito pelo computador, mas a conversa face a face ficou comprometida – a outra concorda, com um tímido aceno de cabeça.

Agora, as Marias se levantam e caminham um pouco, tentando reviver as travessuras da infância, quando escalavam o monumento histórico que fica no meio da praça. Será que vão tentar subir de novo? Elas riem e desistem, voltando ao banco em que estavam. Não se sentem mais tão livres como antes. 

    
Foto: Ygo Prudêncio
É irônico ver que a rua tinha apenas uma cadeia e que agora tem centenas. Vejo poucos moradores na rua. Em compensação, vejo casas que viraram celas. Pessoas que vigiam pelas janelas, como ratos nas gavetas.

A liberdade dos moradores se restringe ao tempo em que ficam nas calçadas. Parecem presos que ganham o direito de visitar a família nas festas de fim de ano e depois voltam para a cadeia. 

Lá no início da rua, outra “rodinha de conversa” se desfaz. Vão todos se entregar às algemas da TV e da internet. “Voltem! Ainda é cedo. Fiquem mais um pouco!”. Ninguém me ouviu. Já se renderam.

É melhor eu ir embora também. A rua está deserta. Daqui do alto do casarão, não vejo mais as crianças correndo, nem os casais apaixonados sendo engolidos pelo beco do museu. Vou bater minhas asas e me juntar às outras corujas. Boa noite!



4 comentários:

  1. Oi Ygo,

    adorei teu blog, estava atrás de uma resenha na internet e encontrei teu blog, deu vontade de ler muitos livros dos que tu escreveu.

    Também tenho um blog de resenhas, onde não posto com tanta frequencia, se quiser me visitar fique a vontade: http://www.portiprati.com/

    Abraços, e continue com esse sucesso. Você escreve bem demais.

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    1. Olá, Tati.
      É muito gratificante receber esse tipo de comentário. Volte sempre que quiser, o mergulho é livre.
      Beijos!

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  2. Lindíssimo texto! Sério, li mais de uma vez para apreciar melhor a beleza e verdade das palavras. As vezes sinto falta do som de gargalhada de crianças na rua, e nem sou tão velha assim. 19 anos e tenho noção de que o mundo e as relações sociais mudaram mais nesses ultimos 5 anos do que nos ultimos séculos...

    Parabéns, Ygo!
    Faz tempo que não entro aqui, mais pelo cansaço a vida do que por outra coisa, e me arrependo. Saiu muita coisa legal enquanto eu estava fora, haha
    Boa semana pra ti ;)
    Abraços

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    1. Olá, Arine-san.
      Realmente, fazia tempo que eu não lhe via por aqui. Que bom que retornou e apreciou o texto. Ele foi feito em dupla com a Michelly Maia, minha colega da faculdade.
      Beijos! Volte mais vezes...

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