sábado, 25 de fevereiro de 2012

1º Episódio - As Aracatienses

Imagem: Ygo Maia


Aracati, cidade pequena, pertinho do mar. Um lugar tranquilo, onde todo mundo se conhece. E é justamente por não existir a palavra “anonimato” no dicionário aracatiense, que algumas pessoas já deixaram de fofocar por hobby e agora o fazem por profissão.
Nosso primeiro destino é a Rua Coronel Alexanzito, mais conhecida como Rua Grande, cenário de tantas histórias e lendas contadas por nossos avós e berço de ilustríssimos cidadãos. É de lá que vem a musa de hoje: Maria de Fátima. Ela é “A fofoqueira da Rua Grande”.

Maria de Fátima é uma empregada doméstica do tipo “braço direito” da patroa. Elas dividem a intimidade e até sentam juntas na calçada no fim da tarde. Como fiel moradora da Rua Grande, não pode deixar de exercer sua segunda profissão: fazer o marketing dos boatos após um cansativo dia de faxina.
E põe cansativo nisso. A casa em que ela trabalha é tão grande, que chegar ao banheiro é cruel e decisivo na hora do aperto. Tem que correr igual à pobre em loja de R$1,99.
É incrível a sua capacidade de captar informações. Seu fofocômetro é ativado 24 horas por dia para depois agir como um facebook: só compartilhando. O pior de tudo é o que antecede os seus relatos, o tal do “ouvi dizer”.

A patroa atende pelo nome de Carmem e tem um filho de 15 anos chamado Vinícius. O marido dela já foi para a terra dos pés juntos e ela vive da pensão do falecido.
Numa tarde de sexta-feira, calma, com o sol rachando os miolos do povo aracatiense, Carmem tirava o seu tradicional cochilo vespertino enquanto Vinícius estava em seu quarto com o amigo Jonas, e Maria de Fátima varria o imenso corredor.
No quarto, Vinícius e Jonas conversavam:
— Preciso contar pra Alice tudo o que sinto por ela – dizia Vinícius, aflito.
— Concordo. Você já guardou esse sentimento por muito tempo – apoiava Jonas. — E se ela estivesse aqui agora, o que você falaria pra ela?

O sensor de Maria de Fátima começou a apitar e ela resolveu colar o seu ouvido na porta justamente quando Vinícius ensaiava na frente do espelho o que diria para Alice.
— Eu sou completamente apaixonado por você. É em você que eu penso quando acordo até a hora de dormir... 
Maria de Fátima escutava aquilo com muita atenção.
— Que babado forte! – exclamava ela.
Com as mãos apoiadas nos joelhos, largou a vassoura para se concentrar melhor e ouvir o restante da conversa.
— Maria! Maria! – gritava Carmem.
— Que merda! A dona Carmem tinha que precisar de mim logo agora?!

Enquanto isso, dentro do quarto...
— E aí, o que você achou? – perguntou Vinícius ao amigo.
— Muito brega. Você anda assistindo muito filme. Acho que você tem que chegar e dar um beijo nela logo de uma vez. Vai por mim.
Depois que Jonas foi embora, Maria de Fátima resolveu passar adiante tudo o que havia escutado. Ou melhor, quase tudo. Pendurada ao telefone, ela contava:
— Menina, eu tenho um babado quente pra te contar... Eu flagrei o filho da dona Carmem se declarando pro amigo dele, aquele tal de Jonas... Uma pena! O Vinícius é tão bem apessoado. Nunca pensei que ele fosse uma bichona enrustida... Tão jovem, agora que fez 15 anos. Se o pai dele fosse vivo ia morrer de desgosto... Agora eu tenho que desligar, vou sentar na calçada com a dona Carmem... Até mais, querida.

E as duas foram sentar na calçada. Acompanhavam todos os movimentos da vida alheia. Ninguém escapava daquela dupla.
— Olhe ali, Maria. Aquela não é a filha da comadre Lúcia com o gerente da loja do Seu Carlos?
— É ela sim, dona Carmem. Ouvi dizer que ela trocou a faculdade de Pedagogia pela de Direito, só pra mostrar que pode pagar. Encontrei uma conhecida dela no supermercado que disse que até pastel ela começou a vender pra pagar a faculdade. E ainda posa de mulher fina por aí. Pra mim, ela namora esse gerente só por interesse.
Ficaram as duas ali até o anoitecer. Quando cansaram a língua, resolveram entrar. O mesmo aconteceu no sábado e no domingo. Até que na segunda-feira...

Vinícius chegou do colégio soltando fogo pelo nariz e foi conversar com a mãe. A cidade inteira andava comentando que Jonas e ele tinham um caso. O boato chegou aos ouvidos de Alice e ela o dispensou na hora. Maria de Fátima, toda desconfiada ali do lado, tentava entrar no assunto:
— As más línguas dessa cidade não perdoam mesmo. – dizia ela, dissimulada. — Mas eu confesso que até pensei que isso fosse verdade depois que ouvi você se declarando pro Jonas na sexta à tarde.
— Como é que é? – disseram Carmem e Vinícius numa só voz.
— Não tive a intenção de causar esse tumulto. Eu só passei o babado adiante. – defendia-se.
Foi assim que descobriram a raiz do problema. Em cidade pequena, fogo de fofoca só apaga quando outra bomba explode. A fama de Vinícius durou menos que o sucesso da “Dança do Quadrado”. No fim das contas, Vinícius e Alice começaram a namorar. E Maria de Fátima, aposentou sua língua venenosa? Que nada! Ela já estava pronta para a próxima.

E fica a dica: cuidado com o que você fala. Pode ter uma Maria de Fátima atrás da porta, se coçando para fazer uma fofoca.

5 comentários:

  1. kkkk muito criativo, e o fofocômetro, hahaha

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    1. Que bom que vocês gostaram!!
      Voltem sempre!!!

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  3. Adorei este episódio...e é exatamente assim em cidadezinha pequena como a minha...todo mundo quer saber da vida de todo mundo com se fosse um direito!!!KKKKKKK

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    1. Fico feliz que tenha se identificado. Acho que o episódio retrata a realidade de várias cidades do país.
      Mergulhe sempre! Beijos!

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