sábado, 3 de março de 2012

2º Episódio - As Aracatienses

Imagem: Ygo Maia


Ponte JK. Basicamente, é isso o que separa o bairro do Pedregal da sede do município. O nome Pedregal nos lembra pedras. E disso, a protagonista de hoje entende bem. A coitada encontra tantas “pedras” pelo caminho, que seria possível reconstruir o Muro de Berlim e ainda sobraria para investir nos estádios de futebol para 2014. A dita cuja é Heloísa: “A deprimida do Pedregal”.

Heloísa é uma mulher simples que trabalha na Zuca Fashion, uma luxuosa loja de roupas da cidade. Ela se considera da nova classe C. Mas, se for D ainda é lucro. Sem trocadilhos.
Como mora longe de onde trabalha e não tem carro próprio, é obrigada a pagar o deslocamento até a sede, e isso a irrita com vigor. Tem que acordar cedo e ficar esperando carro na BR. Vira e mexe ela dispara: “Ser pobre nesse país é uma merda mesmo!”. Claro que isso só acontece quando não tem ninguém por perto, porque pobre mesmo ela não aceita ser.
E como componente do time das menos favorecidas financeiramente, ela sabe muito bem que os problemas não vêm em suaves prestações. Eles vêm de uma só vez, em mutirão. Foi então que num belo dia...

Heloísa acordou feliz da vida, vendo tudo azul. Parecia que o dia seria ótimo. É, só parecia. Logo de cara, veio o estresse no carro. De um lado, uma mulher com um bebê no colo que não parava de chorar. Do outro, um homem com o desodorante mais ultrapassado do que calça boca de sino. Heloísa já estava ficando verde com aquele odor de cebola.
Ao sair daquela tortura, tentou a sorte grande na loteria. Em seguida, se mandou para a Zuca Fashion, quando outra funcionária a abordou na porta da loja:
— Ainda bem que você chegou. A Zuca quer falar contigo lá na sala dela.
Ela tremeu mais que vara verde. Ou receberia um aumento ou seria demitida. A segunda opção lhe parecia mais óbvia.
— Bom dia, dona Zuca! Algum problema?
— Sim, nós temos um problema. E não, hoje não é um bom dia. Eu vou ser bem direta.
Isso era a especialidade dela.
— Pois não.
— Eu tenho recebido reclamações de clientes e cheguei à conclusão de que você não tem o perfil da nossa loja.
— E qual seria esse perfil?
— Estilo, querida. Isso é essencial para a nossa loja e você não o tem. Portanto, pegue as suas coisas e desapareça daqui.

Arrasada, Heloísa saiu da sala e foi embora. Sua maior preocupação era com as contas que tinha para pagar. A situação era “afro-descendente”, para não dizer preta. Seu namorado ligou, jogando um tonel de água fria dizendo que estava tudo acabado entre eles.
O que estava ruim, teria como piorar: Heloísa foi roubada. Curtindo a fossa pela cidade, nem prestou queixa, só pensava nos acontecimentos daquele dia horrível: demitida, sem namorado, assaltada, devendo muito dinheiro... Era uma depressão total. Caminhando, mas sem cantar, Heloísa chegou em casa e contou tudo para a cunhada, ou melhor, ex-cunhada. Ali surgiu a triste ideia de pular da ponte. Sua ex-cunhada tentava convencê-la a não cometer tamanha loucura.
— Eu não aguento mais essa vida. Fui humilhada, demitida, assaltada, o Michael Jackson morreu branco, meu namorado me largou e tenho milhares de contas pra pagar.
— Calma! Tudo vai se ajeitar... Espera aí! Tu disseste Michael Jackson?
— Não vale mais à pena viver. Eu vou pular.
— Deixa de besteira. Desfaz essa cara de xilito. Tu quer morrer logo agora que está rica?
— Como assim, rica? Que diabo de fuleragem é essa? Tu ficou doida ou andou lambendo asfalto quente por aí?
— É verdade. Eu vi o resultado da loteria. Tu ganhou 500 mil reais.
— 500 mil! – exclamou Heloísa, já desistindo de se jogar da ponte.

Sem hesitar, pegou um carro e foi até a loja se vingar da ex-chefe. Quando chegou lá, flagrou o ex-namorado aos beijos com Zuca na sala dela. Na verdade, Heloísa foi demitida para que Zuca tivesse o caminho livre. Tentaram impedir que ela armasse um barraco, mas ela já saiu da sala gritando:
— Seus vagabundos, filhos de uma égua! Vocês se merecem, baralho... Estão vendo essa blusa? Essa calça? Eu vou poder comprar todas. Sabem por quê? Porque agora eu sou uma mulher rica. Ouviram bem? R-I-C-A.
As clientes assistiam espantadas àquele show ao vivo. E o pior é que nada daquilo era verdade. A história dos 500 mil reais foi uma mentira para evitar que Heloísa se jogasse da ponte. Isso pelo menos serviu para levantar o astral dela, mas ela continuava pobre.

E fica a dica: mentira pode até ter perna curta, mas pode tirar uma pessoa da fossa e levá-la para uma cobertura com vista para o mar em apenas 5 minutos.

3 comentários:

  1. Adorei amigo,principalmente o fim, a moral ficou excelênte! Continue assim...

    Raiane.

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  2. Ygo gostei... parabéns, muito bom! tem muita gente com a Heloisa.
    forte abraço! não pare!

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  3. Gostei, principalmente a parte do Michael Jackson kkkkkk

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